Publicado em 13/10/2016 às 16:00 · Bem-estar

Um novo olhar
A artista e psicoterapeuta Tati Pedrosa divide a sua história com o câncer de mama

O diagnóstico do câncer de mama é aterrorizante para qualquer mulher, e não foi diferente no caso da Tati Pedrosa, mesmo ela tendo encarado a doença com outros olhos. Em 2013, aos 43 anos, a psicoterapeuta e artista descobriu o câncer de mama depois de fazer uma mamografia de rotina — na Espanha, país em que ela mora, costuma-se realizar o exame a cada dois anos. Depois de resistir ao início do tratamento da quimioterapia e da radioterapia por achá-los muito agressivos, ela decidiu se render e confiar nos profissionais que estavam dispostos a ajudá-la. Como no ditado “há males que vem para o bem”, hoje em dia, Tati conta que tem uma outra percepção da vida e se vê transformada pela doença, que a tornou mais forte e madura. Para ela, o câncer foi uma grande e bonita descoberta espiritual. Conversamos com Tati, que dividiu com a gente um pouco da sua experiência.

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Tati Pedrosa descobriu o câncer de mama precocemente e não precisou retirar o seio

GIOH: Como você descobriu o câncer de mama?

Tati Pedrosa: No final de 2013, fui fazer uma mamografia, que aqui se faz a cada dois anos. Quando fui pegar os resultados, me disseram que eu deveria ir ao hospital Vall d’Hebron, uma importante instituição médica pública em Barcelona, para continuar fazendo alguns exames, entre eles a biópsia, para retirar o material a ser analisado.

G: Como foi para você ter sido diagnosticada com a doença? O que sentiu?

TP: Foi estranho. Eu estava bastante nervosa quando fui buscar o resultado da biópsia, mas em nenhum momento pensei que poderia ser algo ruim. Estava confiante de que não seria nada, pois eu não me sentia doente. Uma grande amiga me acompanhou nesse dia, e ela também estava muito nervosa. Na sala de espera, cheguei a fazer uma historinha na minha cabeça pensando no que o médico iria me dizer. Para minha surpresa, ele me contou de uma maneira totalmente diferente das possibilidades que eu tinha imaginado, falando com muita tranquilidade sobre o que tinha aparecido nos resultados dos exames e o que ele pretendia fazer. No resultado da biópsia não havia saído nada conclusivo, mas meu médico, Dr. Espinosa, um cirurgião encantador, disse que existia 50% de chance de que seria um tumor e que, portanto, deveria operar. Na hora fiquei um pouco em choque, mas não fiquei assustada porque confiei no médico e pensei que era o que tinha que ser feito. Recebi o resultado da biópsia em uma sexta-feira e na segunda-feira de manhã eu já estava entrando na sala de cirurgia para ser operada.

Um mês depois da operação, já com o resultado final, veio a comprovação da opinião do médico: era realmente um tumor, maligno e agressivo. E, sendo assim, teria que fazer um tratamento composto pela quimioterapia, seguido de radioterapia.

G: Como você reagiu durante o tratamento?

TP: O tratamento realmente foi a parte mais difícil. Foram 6 meses de quimioterapia, 33 sessões de radioterapia e, por mais 5 anos, terei que tomar uma medicação anti-hormonal, Tamoxifeno, que já tomo há 2 anos.

No começo resisti muito. Não queria fazer nenhum tratamento, tudo me parecia muito agressivo. Sempre acreditei mais na filosofia das medicinas orientais, então comecei a ler muitos livros e a ver muitos documentários e vídeos a respeito de tratamentos alternativos. Mas, ao final, me rendi e decidi confiar nas pessoas que estavam ao meu redor, iniciando o tratamento de quimioterapia e, posteriormente, o de radioterapia.

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Tati enfrentou seis meses de quimioterapia e em seguida 33 sessões de radioterapia

É importante dizer que, paralelo ao tratamento proposto pelos médicos, fiz questão de não me afastar daquilo em que acreditava. Para mim, isso significava manter uma alimentação saudável, baseada nos princípios macrobióticos, seguir uma linha de tratamento natural utilizando vitaminas e medicamentos para reforçar o sistema imunológico, receber Reiki e fazer banhos com sal durante todo o tratamento. Foi uma época muito difícil, um mal-estar e um cansaço intensos que me acompanharam em todo o período do tratamento, apesar de ter recebido muito carinho e ter sido muito bem cuidada por todos os médicos e enfermeiros que estiveram comigo durante todo o tempo.

Fundamental para a minha recuperação, tanto física quanto emocional, foi ter me sentido tão cuidada, protegida e amparada pela minha família, meus amigos e meu companheiro.

G: Você teve que fazer mastectomia?

TP: Não. Meu tumor media 3 milímetros, era muito pequeno. Tive muita sorte de descobrir no princípio e não precisar retirar o seio. Fiz duas operações: a primeira no final de 2013, para retirar o tumor, e a segunda em janeiro de 2014, quando me extraíram 11 gânglios, incluindo o gânglio sentinela. Logo depois veio o tratamento.

G: A quimioterapia resulta na queda dos cabelos. Você teve vergonha de ser vista sem eles? Como fazia? Usava lenços, perucas…?

TP: No começo, a queda do cabelo foi impactante, mas naquele momento não teve tanta importância, pois me sentia tão mal com os efeitos secundários do tratamento que não ter cabelo era o de menos. A primeira etapa foi cortar radicalmente o cabelo, depois raspar a cabeça. Provei de tudo: a peruca que um amigo querido me mandou do Brasil, lenços de diferentes cores e tamanhos e, no final, acabei usando um gorro feito com muito carinho pela mãe de uma amiga. Estranhamente, acabei gostando de estar sem cabelo. Gostava de massagear minha cabeça, de senti-la. Foi quando comecei a perceber o carinho que tinha por mim mesma, pelo meu corpo e pelos meus sentimentos.

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Ao perder os cabelos, Tati provou de tudo: lenços, perucas e até um gorro, o seu preferido

G: O que mudou em sua vida depois de vencer a doença?

TP: Quando a pessoa vence a doença, passa a ver a vida sob um prisma diferente. Creio que a doença foi, para mim, uma oportunidade de tomar consciência de que algo não estava indo bem. É o corpo dizendo para parar e se escutar física e emocionalmente. É o momento de recomeçar, curar o corpo e o espírito.

Na vida, passamos por várias mortes. Viver não é uma coisa fácil. Viver é lutar sempre; quando você desiste, se acaba. Mas a sensação de superar situações e sentimentos difíceis depois de um tempo lutando é tão poderosa que nos transforma. E nos damos conta de que a dor e a dificuldade nos fazem mais fortes e maduros. Foi assim para mim, uma grande e bonita descoberta espiritual.

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Tati diz que foi transformada pela doença, ficou mais forte e madura

G: Qual mensagem você deixaria para quem também está lutando contra a doença?

TP: Que entendam que sentir medo é natural; esse é o sentimento que está de acordo com os fatos. Assim como a raiva, o questionamento do “por que eu?”. Viva essas emoções, sinta-as profundamente, mas sabendo que elas serão grandes impulsoras de uma mudança interna. O tempo é o grande remédio: o que, a princípio, parece algo muito horrível e assustador, com o tempo, vemos que não é tanto assim. É necessário encarar a situação como uma etapa de evolução, uma importante tarefa a ser cumprida no caminho do autoconhecimento, sobretudo acreditar que somos muito capazes de gerar pensamentos positivos e curadores. No meu caso, como artista que sou, senti que a arte foi a ferramenta que me ajudou a me expressar de maneira livre e entender o processo que vivi, levando-me a um reencontro comigo mesma, um “ver-me por dentro”. Os projetos que venho desenvolvendo a partir dessa fase refletem essa interação vida-arte.

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