Publicado em 14/11/2016 às 13:00 · Cultura

“Era um biquíni de bolinha amarelinha…”
Em seu novo livro, Lilian Pacce conta toda a história e evolução do biquíni

Um dos sonhos de consumo de toda mulher, o biquíni é uma peça que se reinventa a cada verão e vem evoluindo radicalmente desde a época em que foi criado, há 70 anos. Toda essa transição do biquíni tornou-se objeto de estudo da jornalista e editora de moda Lilian Pacce, que resultou em seu mais novo livro “O Biquíni Made in Brazil”. Durante 13 anos, Lilian dedicou-se totalmente às pesquisas do livro na intenção de encontrar o máximo de informações possíveis e registros de diferentes épocas. Um trabalho realmente difícil! “O Biquíni Made in Brazil” foi lançado mundialmente no mês passado na capital da moda, Paris, e agora a jornalista está viajando por algumas cidades do Brasil para divulgá-lo por aqui, com direito a sessão de autógrafos. Conversamos com Lilian, que nos contou um pouco sobre o processo de criação do livro, suas expectativas com relação a ele e como surgiu a moda do biquíni entre as mulheres.

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(foto: Divulgação)

GIOH: Como surgiu a ideia de fazer um livro contando a história do biquíni?

LILIAN PACCE: O biquíni brasileiro (e toda a nossa moda praia) é objeto de desejo no mundo inteiro, e isso sempre me provocou um misto de orgulho e intriga, já que, como quase tudo na moda, o biquíni é uma invenção francesa. A gente soube se apropriar tão bem que ele foi totalmente incorporado à moda brasileira, arrancando elogios mundo afora. Tudo isso fez com que eu dedicasse mais de dez anos ao livro, cujo tema vai muito além da moda: passa pelas conquistas da mulher, mudanças de comportamento e de hábitos de beleza.

G: Foi difícil fazer um apanhado de toda a história do biquíni? Como fez para apurar todas as informações e dados que estão no livro?

LP: Foi uma pesquisa intensa. De semanas em bibliotecas, como a Nacional no Rio, ou a do museu Victoria and Albert em Londres, lendo muitos livros e vendo dezenas de entrevistas. Um trabalho de formiga, porque o Brasil não está acostumado a preservar sua história e sua memória, e a moda brasileira é muito jovem do ponto de vista histórico. Quando a Bumbum criou o fio dental ou o asa-delta, não sabia que estava fazendo história. E a mesma coisa aconteceu com Rose di Primo quando lançou o biquíni amarradinho. Hoje temos essa noção. Então, fica a dica para a nova geração de estilistas: guardem seus registros e façam história.

G: Quando foi que o biquíni passou a fazer sucesso entre as mulheres?

LP: Em 1926, quando o jornal carioca Beira-Mar publicou um protesto do jornalista Alfredo Sade que criticava as regras rígidas dos trajes de praia, em uma época em que as mulheres ainda eram obrigadas a vestir modelos de sarja, lã ou baeta dos pés à cabeça. Dois anos depois desse protesto, o maiô foi lançado com sucesso no Brasil. A primeira aparição de um modelo de duas peças foi feita pela alemã Miriam Etz, em 1938, na praia do Arpoador, no Rio. O biquíni em si surgiu em 1946. E qual a diferença entre o biquíni e o modelo de duas peças? O biquíni revela o umbigo, parte que tem forte simbologia ligada à vida e ao sagrado. Mas foi um escândalo na época e só pegou mesmo a partir dos anos 60.

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Atriz Carmen Verônica (foto: Arquivo pessoal)

G: Para você, quem foi a mulher que inspirou todas a usarem o biquíni?

LP: Leila Diniz e Rose di Primo no Brasil e Brigitte Bardot no mundo.

G: E no Brasil? Quem foi a musa que mais inspirou a moda do biquíni por aqui?

LP: São tantas mulheres lindas! Luiza Brunet, Magda Cotrofe, Xuxa, Gisele Bündchen, Sabrina Sato… Cada uma com sua beleza tem o seu papel na história do biquíni no Brasil.

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A top Gisele Bündchen foi uma das musas inspiradoras da peça no Brasil (foto: Jaques Dequeker)

G: Você tem a intenção de passar algo para as mulheres com seu novo livro?

LP: Acho que toda essa história que gira em torno do biquíni é bacana para entender a independência que a mulher vem ganhando e a luta que sempre esteve presente na vida de todas as mulheres. A gente também deve muito aos índios, que têm um domínio e respeito pelo corpo muito forte — e códigos morais próprios que os portugueses não souberam entender. Assim como eles, podemos usar o menor biquíni do mundo, mas a nudez ainda pede privacidade. Embora seja comum na Europa, o topless ainda é um tabu aqui. Acho que o livro acaba levantando todas essas questões.

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